Volta ao mundo com: Os incomodados que se mudem

Se a ideia de fazer uma volta ao mundo já passou pela sua cabeça mas você ainda sente um medinho lá no fundo, você está no lugar certo. Você vai ler aqui as belas respostas de um casal que está no final de sua viagem: Carol Campos e Wendell Oliveira do blog Os Incomodados Que se Mudem. A viagem deles começou em janeiro deste ano e duvido que você não fique com vontade de largar tudo e correr pro aeroporto depois que ler essa entrevista. Bom, chega de enrolação e vamos ao que interessa:

  1. O que vocês faziam antes de viajar?Ótima pergunta, porque é sempre bom ter uma chance para desmistificar: Ao contrário do que alguns poderiam pensar, a gente não nasceu em berço de ouro tampouco tínhamos “grandes empregos”. Carol trabalhava como Professora de Educação Infantil e eu era Designer de Tapetes (!), com salários bem dentro da média de qualquer trabalhador brasileiro.
  2. O que os motivou a fazer essa viagem?Um misto de vontade de conhecer o mundo com insatisfação em viver no Brasil. Uma coisa puxou a outra, rs.
  3. Quanto tempo de planejamento entre a decisão de sair pelo mundo e a despedida no aeroporto?Já acompanhávamos há algum tempo diversos blogs de viajantes  que haviam feito uma viagem como essa, como o Mochilando pelo Mundo, Quatro Cantos do Mundo  e Two Backpackers, por exemplo.
    Lá pelo início de 2013 é que tivemos aquele estalo e pensamos: “Ei, a gente pode fazer isso também!”. Então, podemos dizer que 2013 todo foi um verdadeiro ano de planejamento, onde fomos decidindo cada detalhe de roteiro, orçamento, etc.
    E no dia 26 de Janeiro de 2014, embarcamos rumo à nossa primeira viagem internacional 🙂
  4. Vocês compraram a passagem de Volta ao Mundo ou os trechos separados?Nosso planejamento inicial era adquirir uma passagem de Volta ao Mundo. Tentamos várias vezes concretizar a compra, mas aparentemente os sites das alianças de companhias aéreas não iam muito com a nossa cara, rs. Quando finalmente conseguimos efetuar o processo, estranhamos a demora deles em debitarem o valor no nosso cartão.
    Foi um martírio ter que contatar via telefone todas as empresas envolvidas nos bilhetes, que apenas nos empurravam uma às outras, nos mais diversos idiomas, sem nos dar a informação do que realmente estava acontecendo. Por fim, descobrimos que nosso bilhete não foi emitido porque a companhia que iríamos no primeiro voo não poderia “honrar” nossa passagem. Deveríamos ter comprado as passagens com eles diretamente ao invés de ter usado o simulador online da própria Aliança, coisa que eles não explicam em lugar algum!Resumidamente: Faltando 3 meses para a data programada do início da viagem, ainda não tínhamos os tickets! Tivemos que mudar os planos de última hora, alterar o roteiro e comprar os primeiros trechos separadamente, por conta própria.

    Ficamos bem chateados na época, mas analisando hoje, até que foi melhor assim. Graças a isso tivemos mais flexibilidade na nossa viagem 🙂

  5. Como vocês orçaram os custos de viagem e juntaram a grana?Felizmente muitos blogs de viagem, a exemplo do nosso, disponibilizam seus orçamentos e planilhas de gastos. Com isso, foi fácil estipular nossas metas e saber de antemão o quanto gastaríamos em média em cada país. E na maioria das vezes, acabamos gastando bem menos que imaginávamos! Também pesquisamos dados dos países que iríamos visitar em relação ao custo de vida, preços médios de determinados produtos, etc. O site Numbeo ajudou bastante nessa tarefa.Quanto ao processo de juntar o dinheiro, nós sempre tivemos uma vida muito frugal. Sempre nos locomovemos de bicicleta como principal meio de transporte, evitávamos comer fora, jamais terceirizamos os serviços domésticos, tampouco tínhamos luxos como TV a Cabo ou ar-condicionado em casa. Então já tínhamos o nosso “pé de meia”, que poderia ser usado para comprar um carro ou dar entrada em um apartamento, mas preferimos direcioná-lo à viagem.
  6. Vocês conseguem definir qual a melhor e a pior experiência? Quais foram?Tivemos muitas experiências maravilhosas, desde andar de elefante no Laos a voar de balão na Turquia; conhecer os lugares mais sagrados da Terra Santa e mergulhar nas praias paradisíacas das ilhas tailandesas; sentir novas temperaturas e novos sabores, e poder dar valor a tudo isso!Mas, definitivamente, nada é melhor do que acordar todo dia e saber que você está realizando seu maior sonho, algo que beirava o impossível na sua vida, mas que hoje pela graça de Deus você pode vivenciar. Nós nunca havíamos saído do país antes, imagine só o friozinho na barriga a cada fronteira cruzada, a cada carimbo novo no passaporte… Não tem experiência melhor que essa!

    Claro, nem tudo são flores. Apesar de termos sido sempre bem-tratados e nos sentido seguros em todos os lugares que fomos, a situação mudou drasticamente na Espanha. Chega a ser engraçado, mas após cruzar boa parte da Ásia e do Oriente Médio fomos sentir um “choque cultural” justamente nesse país!

    Foi o primeiro – e único – lugar que nos trataram muito mal, com um desrespeito e uma falta de educação inacreditáveis. Por fim, como se não pudesse ficar pior, ainda tivemos nossa mochila roubada dentro do próprio hotel! Levaram documentos importantes, cartões e até o computador, o que nos fez mudar o roteiro e adiar a América Latina para uma próxima viagem.

  7. Em algum momento vocês pensaram em largar tudo e voltar pra casa? Por quê?Sinceramente?  NÃO.
    Muito pelo contrário, em vários momentos nós chegamos a pensar em largar tudo NO BRASIL e criar a nossa “casa” em outro lugar. E continuamos pensando.
    Odiamos bancar o papel de brasileiros deslumbrados, mas é complicado não se colocar nessa posição após uma viagem como essa. A impressão que temos é que passamos a maior parte das nossas vidas em uma ilha, desprovidos de qualquer liberdade, segurança e acesso à educação de qualidade.Parece-me um comportamento bem comum entre nós, brasileiros, após uma viagem aos EUA ou à Europa voltarmos meio desgostosos com nosso país e termos a vontade de mudar. Mas alguns empecilhos como a moeda valorizada, a dificuldade de realocação no mercado de trabalho (e uma provável perda no padrão de vida) e até mesmo o suposto preconceito façam-nos mudar de ideia, mantendo-a no campo dos “sonhos”.

    Mas o que dizer de alguns lugares da Ásia, como Hong Kong , Singapura ou até mesmo a Tailândia, onde as vantagens de se viver neles equiparam-se aos dos países mais desenvolvidos, mas com um custo de vida pelo menos 3 vezes inferior ao do Brasil? Lugares que estão acostumados a receber estrangeiros de braços abertos, com infraestrutura e índices socioeconômicos invejáveis?

    A única razão para voltarmos pra “casa” é a nossa família e amigos, nada além disso.

  8. Qual o povo mais hospitaleiro com o qual vocês tiveram contato?Turcos, na ponta da língua, sem pensar duas vezes!Mas antes, um adendo: o ser humano é igual em qualquer lugar do mundo. Todos nós temos características – positivas e negativas – que nos definem.  E em relação à hospitalidade, todas as nacionalidades tentam dar o seu melhor.

    Mas nesse quesito os turcos se superam: São os mais calorosos, mais atenciosos, fazem questão de abrir o lar e o coração ao visitante, querem conversar, compartilhar conhecimento, e você ainda vai se envolver numa briga séria com eles caso queira pagar a conta!

    Recebemos tratamentos semelhantes em países como Israel, Palestina e Kosovo, o que nos fez chegar a conclusão que a religião e os contextos históricos de cada nação podem tornar os seus povos mais hospitaleiros.

  9. Um lugar que marcou a vida de vocês e por quê:Pisamos em mais de 30 países, e cada um nos marcou de maneira única e profunda.Mas um em especial nos marcou demais: o Camboja.

    Um país destruído pela guerra, fome e ganância do ser humano, que teve mais da metade da sua população dizimada de forma brutal e que ainda assim consegue seguir de cabeça erguida perante os desafios do cotidiano.

    Terra de um povo trabalhador, estudioso e esforçado, que buscam olhar sempre para o presente, com esperança no futuro e sem mágoas do passado. O Camboja é mais que é um país, é uma lição de vida!

  10. Uma comida que todo mundo deveria provar:TODAS!Não há nada que nos deixe mais tristes do que ouvir de pessoas que estiveram em algum país dizerem: “Eca, eu jamais provaria aquilo! Fiquei só no Mc Donald’s mesmo!”. É necessário lembrar que por mais diferente ou exótico que seja algo, aquilo é o alimento de um povo, gente que é igual a qualquer um de nós, nem piores nem melhores. É parte de sua identidade cultural.

    Tratar como “lavagem” um alimento e como “selvagens” aqueles que o comem é algo muito triste que infelizmente presenciamos várias vezes. Não estamos querendo dizer que todos deveriam comer carne de cachorro ou cobra, mas que ao menos respeitem quem o faça.

    No nosso caso, contanto que não esteja estragado ou envenenado, comemos de tudo 🙂

    Nossa lista de comidas preferidas é extensa, mas acho que o primeiro lugar é do Roti Canai, uma receita simples da Malásia que baseia-se em uma fina massa folheada acompanhada por algum molho (preferencialmente de frango com curry!) e um copo de Teh Tarik (chá preto com leite condensado) bem gelado!

  11. Qual o sentimento de vocês nessa fase final da viagem?Após 10 meses viajando, muita coisa acontece.É chegada a hora de voltarmos para as nossas famílias, celebrar a vida dos que nasceram, lamentar a ausência daqueles que se foram, cuidar dos que adoeceram e, enfim, abraçar bem forte todos aqueles que a distância nos fez separar.

    Por um outro lado, também estaremos deixando para trás muito daquilo que sempre sonhamos: uma sensação incrível de liberdade e segurança que jamais havíamos experimentado em nosso país; A certeza de que o único perigo entre o nosso “sair” e “voltar” é um improvável meteoro caindo bem em cima de nossas cabeças.

    Adoraríamos voltar ao Brasil renovados, quase patrióticos, exaltando tudo que há de bom nessa terra. Mas não dá. Dez meses pelo mundo te dão a exata noção do que é “achismo” e o que é “realidade” sobre o nosso país. E a realidade infelizmente não é boa.

    Entre a vontade de chegar no aeroporto, rever todo mundo e embarcar no próximo voo de volta e a vontade de convencer todos que amamos a sair daí, preferimos respirar um pouco, entregar as coisas nas mãos de Deus e dar tempo ao tempo.

    O sentimento é confuso. Talvez de alegria, mas uma alegria um pouco triste.

  12. O que vocês diriam para aquelas pessoas que sonham em fazer uma viagem dessas e tem medo?VOCÊS VÃO MORRER AMANHÃ!!Ok, brincadeira, rs. Ou talvez não 😉

    O fato é que nós tivemos a oportunidade de fazer essa viagem em um momento bem oportuno:  jovens, sem “carreira” definida mas também sem dívidas, com saúde e algum dinheiro no bolso. Qualquer um nessas condições teria bem pouco medo, justamente por não ter nada a perder.

    Por um outro lado, recebemos frequentemente mensagens de pessoas em condições de vida adversas que gostariam de fazer o mesmo e nos perguntam como deveriam proceder. A nossa resposta, do fundo do coração? NÃO SABEMOS.

    O que aprendemos nessa viagem é que o mundo é grande. GIGANTESCO. E aconchegante ao mesmo tempo. Há um lugar para cada um, há felicidade em cada olhar, há amor em cada gesto, há níveis de carinho e hospitalidade intraduzíveis em cada canto que se vá.

    Nós não estamos aqui pra dizer que você deve abandonar o seu trabalho, vender seu carro ou sua casa e “embarcar no desconhecido”, porque às vezes o desconhecido também cansa. Você também não precisa esperar ganhar na Mega-Sena, ou chegar na “idade certa” pra viajar… Tudo isso são apenas desculpas.

    Ao longo da viagem, vimos desde viajantes solitários aos que viajam com toda a família (crianças inclusas, penduradas nas costas como mochilas!). Vimos jovens sisudos e velhos hippies,  poliglotas e mímicos; gente que só pega táxi e outros que viraram artistas de rua para poder comer. Em comum, todos estes estão realizando seus sonhos, estão viajando, descobrindo e redescobrindo o mundo como ele é. E sempre nos pareceram muito felizes, mesmo com todos os problemas do caminho.

    O que a gente pode dizer é isso, baseado no que vimos e vivemos.

    Não desista. Planeje. Persiga seus sonhos, e se possível transforme-os em objetivos, porque só quem sonha acordado vê o sol nascer.

Pra finalizar queria agradecer mais uma vez aos queridos Carol e Wendell e deixar um vídeo super legal que eles fizeram na Indonésia. Confiram

 

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