Robben Island, a prisão onde Nelson Mandela ficou

Sabe aquelas aulas de história que você não dava a mínima na escola? Sinto falta delas em algumas viagens, e na África do Sul não foi diferente. Queria ter “estudado” um pouco mais a história do Apartheid antes de ter ido pra lá. Mas, como sou cabeçuda, não “estudei”. Uma dica pra você: se for pra África do Sul pelo menos assista o filme Mandela – O caminho para a liberdade antes. A gente fez o contrário, foi primeiro visitar a Robben Island e depois assistiu. Nesse dia a gente decidiu que não dava mais para passear pelo país sem saber a história.

Robben Island é uma ilha que fica a 20 quilômetros da Cidade do Cabo e você vai passar uns 30 minutos em um barco para chegar lá. O barco sai do Nelson Mandela Gateway (no Victoria & Albert Waterfront), no fim desse post deixo mais informações sobre como comprar ingressos. Uma das atrações da ilha é, sem dúvida, a vista espetacular que se tem da Cidade do Cabo. Se você leu nosso post anterior (leia aqui) sabe que no dia que fomos até a ilha baixou uma neblina ferrada, então não espere por fotos maravilhosas do lugar. Vamos focar então no seu importante papel na história da África do Sul.

História de Mandela

Mesmo que você tenha colado nas aulas de história, já deve ter ouvido falar de Nelson Mandela e do Apartheid. Para resumir, Mandela era advogado em Johanesburgo e ativista do Congresso Nacional Africano (CNA). Ele lutava pelo direito dos negros serem ouvidos em seu próprio país. Desde o início Mandela pregava a resistência pela não-violência porém, após o massacre de Sharpeville, se rendeu a resistência armada criando a Umkhonto we Sizwe – “Lança de uma nação”. Em 1962 foi preso por incentivar greves e sair do país sem autorização.

Em 1964 Mandela e outros membros do CNA foram a julgamento por sabotagem e por incentivar outros países a invadirem a África do Sul. Mandela assumiu a sabotagem e fez o seguinte discurso no julgamento: “Durante a minha vida eu me dediquei ao sofrimento do povo africano. Eu lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Eu apreciei o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todas as pessoas vivem em harmonia com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual eu espero viver e atingir. Mas se necessário, é um ideal pelo qual eu estou preparado para morrer”. Todos foram condenados a prisão perpétua.

A cruel Robben Island

É a partir desse momento que entra em cena a Robben Island. Foi pra lá que os prisioneiros da CNA foram mandados e onde Mandela ficou preso por 18 anos. As regras da prisão eram extremamente rígidas e havia uma discriminação até entre os prisioneiros. Os negros eram chamados de meninos e tinham ainda menos direitos do que os prisioneiros asiáticos. Os brancos não eram mandados para Robben Island.

As regras da prisão eram tão cruéis que os prisioneiros mal podiam ver seus familiares. Não era permitida a visita de crianças, portanto os presos ficavam anos sem ver seus filhos. Namoradas e noivas também não podiam entrar na ilha. Cartas As cartas também eram restritas.

O tour dentro do ônibus

Chegando até a ilha, você iniciará a visita guiada em um ônibus. A primeira, e rápida parada, é no Santuário de Moturu Kramat, uma pequena mesquita de domo verde. Em seguida, passamos por um cemitério onde foram enterrados aqueles que morreram de lepra. A próxima parada é na pedreira. Hoje não é mais possível descer do ônibus pois os turistas estavam descaracterizando o local e levando pedras para casa. As portas do ônibus são abertas para aqueles que querem fotografar e enquanto isso o guia explica um pouco sobre o local. Esse lugar era o inferno e o paraíso dos prisioneiros. Aqui eles trabalhavam duro quebrando pedras, mas também conseguiam escapar dos olhos e ouvidos dos guardas para trocar ideias. Essa “reuniões” aconteciam dentro de uma caverna, que servia como banheiro dos presos. O mal cheiro do local evitava que os guardas se aproximassem. Ainda dentro do ônibus, passamos por uma pequena vila, onde moram hoje os funcionários da ilha.

Por fim, paramos em um pequeno comércio onde é permitido descer do ônibus e explorar brevemente o local. É nesse lugar que deve-se ter uma das mais belas vistas da Cidade do Cabo, que obviamente não pudemos apreciar porque as nuvens não quiserem dar uma trégua. Subimos novamente no ônibus para o Gran Finale da visita.

Na ilha há um cemitério onde aqueles que morriam de lepra eram enterrados.
Na ilha há um cemitério onde aqueles que morriam de lepra eram enterrados.
A pedreira. Aqui os prisioneiros tinham uma folga para conversar, naquela caverna ao lado esquerdo.
A pedreira. Aqui os prisioneiros tinham uma folga para conversar, naquela caverna ao lado esquerdo.
Era pra gente enxergar a Cidade do Cabo daqui. Tá vendo?
Era pra gente enxergar a Cidade do Cabo daqui. Tá vendo?
A visita guiada dentro da prisão

Ao chegar na prisão o guia do ônibus se despede dos turistas e somos recebidos por um ex-prisioneiro. Todas as visitas dentro da prisão são feitas dessa forma. Infelizmente não consegui anotar o nome do nosso guia, mas ele foi o prisioneiro número 18/83, o que significa que foi o 18º preso a ser levado para Robben Island em 1983.

Somos levados para uma das celas da prisão, em uma das 7 alas existentes lá. Ali o guia nos conta um pouco de como foi a sua vida em Robben Island e como os negros eram maltratados ali. Vestuário, comida ou acomodações, se o prisioneiro fosse negro ia receber o pior possível.

Nosso guia não era considerado dos mais perigosos, portanto foi lotado na ala F. Algum tempo depois de sua prisão foi transferido para a ala G e trabalhou na cozinha do presídio.

Nosso guia foi levado para Robben Island em 1983.
Nosso guia foi levado para Robben Island em 1983.
A seção B e a cela de Mandela

A seção ou aba B era onde ficavam os líderes políticos. Mandela ficou ali por xx anos, numa cela de poucos metros quadrados, com um cobertor no chão que fazia as vezes de cama, um pequeno criado mudo e um balde que era usado como latrina. Foi nesse local que ele escreveu o primeiro manuscrito de Long Walk to Freedom (em português traduzido por Longa caminhada até a liberdade). Segundo nosso guia, os escritos ficavam escondidos no jardim e foram encontrados pelos guardas em uma das rondas e confiscados. Mas Mandela não desistiu. Sabendo que um dos seus parceiros, Mac Maharaj, estava prestes a ser solto, Mandela reescreveu tudo e o amigo deu um jeito de esconder o manuscrito e o publicou a primeira vez em Londres.

A cela de Nelson Mandela, do mesmo jeito que estava quando ele ficou aqui por 18 anos.
A cela de Nelson Mandela, do mesmo jeito que estava quando ele ficou aqui por 18 anos.
A saída da prisão

Depois de conhecer a ala B, fomos soltos pelo nosso guia e nos dirigimos ao ônibus que nos levaria de volta ao pier. Mandela não teve a mesma sorte que a gente de passar apenas um dia na ilha. Ele ficou preso em Robben Island durante 18 anos. Mas não pensem que depois disso ele se tornou um homem livre. Depois de deixar a ilha ainda passou por outras 2 prisões e só foi declarado homem livre em 11 de fevereiro de 1990, depois de 27 anos de prisão.

E Madiba, como era chamado, ainda tem muita história para contar, mas vamos deixar isso pra outro post.

A temida prisão de Robben Island
A temida prisão de Robben Island

Informações Práticas para visitar a Robben Island

Ingressos online e horários dos barcos: Site Robben Island – Web Tickets

Quanto custa: 340 Rands para adultos e 190 Rands para crianças (dezembro/2017) – Cada Real vale aproximadamente 3,75 Rands.

Como chegar: apenas de barco, que sai do Nelson Mandela Gateway, no Pier Victoria e Albert

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